Liderança & Recursos Humanos

No fim, tudo numa empresa se resume a pessoas. A quem se escolhe, a como se conduz, a quanto se confia e a que exemplo se dá. Nesta secção reúno reflexões sobre as duas faces da mesma arte, a de liderar e a de gerir quem connosco trabalha. Falo de recrutamento e de talento, de exigência e de respeito, de delegação, de motivação e das decisões difíceis que envolvem as pessoas. Porque uma empresa não é maior do que a qualidade de quem a compõe, e um líder não se mede pela altura a que chega, mas pela altura a que faz chegar quem caminha com ele.

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A proteção de um e a responsabilidade para com todos.

Categoria: Opinião - Recursos Humanos
Autor: António Martins            
03 de Outubro de 2026

Introdução
Nas empresas, os problemas mais difíceis raramente são os que aparecem nos números. São os que se instalam devagar, numa equipa, numa conversa de corredor, numa reunião em que alguém decide, sem o dizer, que nada do que ali se decidir vai funcionar.
Quem gere pessoas conhece bem esse momento. Apresenta-se um novo processo, uma nova ferramenta ou uma nova forma de trabalhar e a maior parte da equipa procura compreender. Uma pessoa, porém, encolhe os ombros e diz que já se tentou e que antes é que era. Fora da sala diz bastante mais.
Não escrevo sobre um caso concreto nem sobre uma empresa em particular. Escrevo sobre uma realidade que atravessa o tecido empresarial português e que as pequenas e médias empresas enfrentam no seu dia a dia, muitas vezes em silêncio, sem departamentos jurídicos nem estruturas de recursos humanos que as ajudem a lidar com ela.
É dessa realidade que nasce uma pergunta que merece ser feita com serenidade e sem preconceitos. Quem protege a empresa e os restantes trabalhadores quando o comportamento persistente de uma única pessoa começa a prejudicar o conjunto?

A mudança e quem fica para trás
Há colaboradores que foram durante muitos anos peças essenciais de uma organização. Conheciam os clientes pelo nome, dominavam o ofício e resolviam com naturalidade aquilo que outros demoravam semanas a perceber. Entretanto o mercado mudou, e com ele mudaram as empresas. Chegaram os sistemas de gestão de clientes, os indicadores de desempenho, os novos canais de venda e, muitas vezes, chefias mais jovens com outra forma de pensar.
Nenhuma destas mudanças é um capricho. É a condição para que a empresa continue a existir num mercado mais exigente e mais competitivo. Para muitos colaboradores, esta transformação é um estímulo. Para outros representa uma perda difícil de aceitar, porque deixam de ser quem sabia tudo e passam a ser avaliados por critérios objetivos.
A resistência à mudança é humana e compreensível. O problema começa quando o receio se transforma em frustração, a frustração em desmotivação e a desmotivação numa atitude permanente de oposição que a pessoa escolhe manter.

Do desconforto individual ao prejuízo coletivo
Um colaborador desmotivado que cumpre o essencial é um desafio de gestão. Um colaborador que transforma o seu descontentamento em resistência ativa passa a ser um problema da organização inteira. Questiona sistematicamente as decisões, não para as melhorar mas para lhes retirar credibilidade. Trata os procedimentos como sugestões, alimenta conflitos, semeia desconfiança sobre as intenções da direção e procura, por vezes de forma subtil, trazer colegas para o seu lado.
Importa distinguir com rigor a discordância da sabotagem. Discordar abertamente, com argumentos e no lugar próprio, é um contributo valioso que qualquer empresa deve acolher. Aceitar uma decisão na reunião e combatê-la depois em silêncio é algo muito diferente.
A organização que não consegue agir perante estas atitudes acaba, sem o desejar, por penalizar quem fala com franqueza e por proteger quem mina sem se expor.

O custo que não se contabiliza
O prejuízo causado por um comportamento disfuncional não aparece numa rubrica da demonstração de resultados. Dilui-se por todas elas. Perde-se produtividade em discussões repetidas e em processos aplicados apenas pela metade. Desgastam-se as chefias, que passam a gerir uma pessoa em vez de desenvolver uma equipa. Desmotivam-se os bons profissionais, que observam que a atitude negativa não tem consequências, e os melhores, precisamente porque têm alternativas, acabam por sair.
Há ainda um custo mais profundo e mais lento. Um comportamento que não pode ser travado acaba por influenciar a cultura da empresa. Uma organização recupera de um mau ano com relativa facilidade. Recupera muito mais devagar de uma equipa que deixou de acreditar que o esforço e o mérito compensam.

Entre a proteção legítima e os seus limites
A segurança no emprego é um princípio de grande valor civilizacional. Está consagrada no artigo 53.º da Constituição da República Portuguesa, que proíbe os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos. A sua razão de ser é clara. Quem depende de um salário não pode ficar à mercê de decisões arbitrárias.
Convém, no entanto, recordar que a lei não estabelece apenas deveres para a empresa. O artigo 128.º do Código do Trabalho determina que o trabalhador deve respeitar e tratar com urbanidade o empregador, as chefias e os colegas, realizar o trabalho com zelo e diligência, cumprir as ordens e instruções legítimas, guardar lealdade, contribuir para a melhoria da produtividade e participar na formação que lhe é proporcionada. São deveres tão legais quanto os direitos, embora sejam muito menos citados.
Neste quadro é essencial distinguir situações que no dia a dia surgem misturadas. A dificuldade genuína de adaptação, o baixo desempenho, o desacordo, o conflito entre pessoas e o incumprimento de deveres laborais são realidades distintas, que pedem respostas distintas. O que a lei permite sancionar é o comportamento concreto, como a ordem legítima que não se cumpre, o conflito provocado de forma repetida ou o desrespeito que se instala.
O Código do Trabalho, na redação atualmente em vigor, oferece à empresa três caminhos. O poder disciplinar permite aplicar sanções proporcionais à gravidade da infração, desde a repreensão até à suspensão, dentro de prazos exigentes. O despedimento por justa causa, previsto no artigo 351.º, pressupõe um comportamento culposo que, pela sua gravidade e consequências, torne imediata e praticamente impossível a subsistência da relação de trabalho. Entre os exemplos que a própria lei indica encontram-se a desobediência ilegítima às ordens, a provocação repetida de conflitos com colegas e o desinteresse repetido pelo cumprimento das obrigações. Por fim, o despedimento por inadaptação, regulado nos artigos 373.º a 380.º, exige formação profissional adequada, um período de adaptação não inferior a trinta dias e a inexistência de outro posto compatível, conferindo ao trabalhador direito a compensação.
A proposta de reforma conhecida como Trabalho XXI, que pretendia alterar várias destas regras, foi rejeitada na Assembleia da República em junho de 2026. O regime descrito mantém-se, por isso, inalterado.
Os instrumentos existem. A dificuldade está na sua aplicação. A justa causa foi pensada para factos graves e identificáveis, ao passo que o comportamento mais corrosivo é muitas vezes difuso, feito de pequenas atitudes que, isoladamente, nada provam. A prova é exigente e os colegas raramente se dispõem a testemunhar. Se o despedimento for declarado ilícito, o risco financeiro recai integralmente sobre a empresa, o que numa pequena ou média empresa pode representar um encargo muito superior ao custo de continuar a tolerar.
É por isso que muitas empresas simplesmente não agem. Não porque concordem com o comportamento, mas porque a incerteza de agir parece maior do que o prejuízo de suportar. Nesse cálculo raramente entra o preço pago pelos restantes trabalhadores. A questão que proponho não é se a proteção deve existir, porque deve. É se está suficientemente calibrada para proteger também quem trabalha ao lado de quem prejudica o grupo.

O papel da liderança e os seus limites
É justo reconhecer que a liderança tem um papel importante neste processo. Cabe-lhe explicar a mudança, criar condições de aprendizagem, definir regras claras e acompanhar as pessoas. É isso que se espera de uma gestão profissional e é isso que a generalidade das empresas procura fazer.
Na grande maioria das empresas, sobretudo nas pequenas e médias, esse caminho já é feito todos os dias. Explica-se a mudança, investe-se em formação, dá-se tempo, definem-se objetivos e ouve-se quem tem dúvidas. Muitas vezes faz-se até mais do que a lei exige, porque nenhum empresário deseja perder alguém que conhece o negócio. Quando, apesar de todo esse esforço, o comportamento se mantém, a responsabilidade já não pode ser procurada do lado de quem deu oportunidades. Passa a estar do lado de quem escolheu não as aproveitar.
Há também limites que importa afirmar com clareza. Uma empresa não é uma escola permanente nem pode substituir a vontade de cada um. Pode oferecer formação, mas não pode obrigar alguém a querer aprender. Pode explicar as decisões, mas não pode exigir de si própria que todos concordem. A partir de certo ponto, a atitude perante o trabalho é uma escolha individual de um profissional adulto e deve ser tratada como tal.
Por isso é importante distinguir quem não consegue de quem não quer. Quem não consegue merece apoio. Quem não quer e prejudica os outros precisa de limites claros. Exigir à empresa que trate ambos da mesma forma é injusto para ela e, sobretudo, para os colegas que cumprem.

Reciprocidade e sustentabilidade
Uma relação laboral saudável assenta num compromisso entre duas partes e não numa concessão de uma à outra. A empresa deve remuneração justa, condições dignas, formação, respeito e regras claras. O colaborador deve respeito, responsabilidade, profissionalismo e cumprimento das normas, tanto perante a empresa como perante os colegas.
Quando o debate público se concentra exclusivamente nos direitos de uma das partes, esquece-se que os colegas de quem degrada o ambiente de trabalho também têm direitos, desde logo o direito a trabalhar num lugar saudável e a ver o seu esforço reconhecido.
Há ainda uma dimensão frequentemente ignorada. A empresa não é um empregador abstrato com recursos ilimitados. Na realidade portuguesa é, na grande maioria dos casos, uma pequena ou média organização com margens apertadas, que precisa de ser rentável para pagar salários, impostos e fornecedores, para investir e para crescer. Quando a produtividade cai e os melhores saem, quem paga não é uma entidade distante. São os postos de trabalho de quem cumpre.
Proteger a empresa não significa proteger o empresário contra o trabalhador. Significa proteger a estrutura que sustenta o emprego de todos, a começar por aqueles que todos os dias cumprem, evoluem e contribuem para a sua continuidade.

Considerações finais
Não acredito em respostas fáceis para este problema e desconfio de quem as apresenta. Um sistema que facilite o despedimento abre caminho à arbitrariedade. Um sistema que torne quase impossível agir perante comportamentos reiteradamente prejudiciais deixa desprotegidos aqueles que não têm qualquer culpa, os colegas que ficam e a própria empresa que os emprega.
O equilíbrio exige empresas que continuem a investir nas pessoas, colaboradores que assumam que a segurança no emprego vem acompanhada de deveres e um enquadramento legal que, sem abdicar da proteção contra a arbitrariedade, reconheça que a conduta persistente de uma pessoa pode ter um custo real para muitas.
A pergunta que deixo ao leitor não é se devemos proteger o trabalhador. Devemos fazê-lo sempre. A pergunta é se estamos a proteger todos os trabalhadores ou apenas aquele que mais perturba.
Proteger quem trabalha é um dever de qualquer sociedade justa, mas proteger a organização que cria e mantém esse trabalho é a única forma de garantir que esse dever continua a ter onde se cumprir.

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A Formação que a Empresa Dá e a que Só Depende de Nós.

Categoria: Opinião - Recursos Humanos
Autor: António Martins            
23 de Agosto de 2026

Existe hoje um dilema que perturba muitas empresas, e sobre o qual se fala pouco com franqueza. Por um lado, a tecnologia avança a uma velocidade que exige profissionais cada vez mais atualizados. Por outro, escasseiam as pessoas com as competências necessárias para acompanhar essa evolução. E, no meio deste desencontro, instalou-se uma ideia que considero perigosa, a de que a responsabilidade de formar recai, inteira e exclusivamente, sobre as empresas.

Não me entendam mal. A formação dada pelas empresas é importante, e as boas organizações investem nela com convicção. Mas há uma verdade que a lei e o discurso corrente teimam em ignorar. Nenhuma formação produz resultado quando falta, do lado de quem a recebe, a base, a vontade e o foco para a transformar em competência real.

Os limites da formação imposta

A legislação laboral obriga as empresas a assegurar um número mínimo de horas de formação por trabalhador. A intenção é boa, mas a prática revela um problema. Muita dessa formação obrigatória cumpre-se por dever legal, não por vontade de aprender, e por isso não se traduz em resultado nenhum.

A investigação sobre aprendizagem em contexto profissional é clara quanto a este ponto. O conhecimento não se transfere de forma passiva, como quem enche um recipiente. Ele constrói-se, e essa construção exige um papel ativo de quem aprende. Sem uma base mínima que permita compreender o novo, sem vontade genuína de evoluir e sem foco para se dedicar, as horas de formação transformam-se em tempo cumprido, não em capacidade adquirida. A empresa gasta, o formador ensina, o certificado emite-se, e pouco ou nada verdadeiramente muda.

É por isto que tantas empresas se queixam do mesmo. Investem em formação e não veem retorno. O problema, muitas vezes, não está na formação em si, está na ausência das condições pessoais que a tornariam frutífera.

A responsabilidade que é de cada um

Chego assim ao ponto central, e faço-o com o cuidado de quem respeita profundamente quem trabalha. Ser um profissional atualizado não pode depender apenas daquilo que a empresa oferece. Depende, antes de tudo, da atitude de cada um perante o seu próprio ofício.

Ao longo da minha vida observei uma diferença que se repete em todos os setores. Há profissionais que esperam que alguém os venha formar, e há profissionais que tomam nas próprias mãos a sua evolução. Estes últimos leem, procuram formação, experimentam, perguntam, e mantêm-se curiosos mesmo quando ninguém os obriga. Não é uma questão de meios nem de diplomas. É uma questão de atitude. E é quase sempre esse grupo, o dos que se formam a si próprios, que se destaca, que cresce e que nunca teme ficar para trás.

A base literária conta, é certo, porque quem tem dificuldade em ler, interpretar e raciocinar terá naturalmente mais dificuldade em absorver o novo. Mas mesmo essa base se pode reforçar com vontade. O que verdadeiramente separa quem evolui de quem estagna não é o ponto de partida, é a disposição para continuar a aprender ao longo de toda a vida. Aquilo a que os especialistas chamam, com razão, a aprendizagem contínua.

Um compromisso partilhado

Não defendo, com isto, que as empresas se demitam do seu papel, muito pelo contrário. A empresa deve criar as condições, oferecer oportunidades, estimular e reconhecer quem se esforça por evoluir. Essa é a sua parte, e é uma parte séria.

Mas há ainda uma terceira responsabilidade, de que pouco se fala, e que recai sobre o próprio mercado da formação. De nada serve exigir profissionais atualizados e empresas empenhadas se a oferta formativa disponível não estiver à altura do desafio. E, sejamos honestos, grande parte dela não está. A maioria da formação que se encontra no mercado é demasiado básica, repetitiva, e concentrada em dois ou três setores de atividade, deixando muitos ofícios sem respostas adequadas às suas necessidades reais. É preciso uma formação credível, útil e com valor verdadeiro, desenhada para servir ao mesmo tempo as necessidades de quem trabalha e as das empresas que os empregam. Formação a mais e substância a menos não forma ninguém, apenas consome tempo e dinheiro e alimenta a desilusão de quem procurava, de boa fé, evoluir.

Mas a formação mais poderosa é sempre aquela que nasce de um encontro, ou seja, o encontro entre uma empresa que oferece a oportunidade e um profissional que a agarra com vontade. Uma sem a outra não chega. A melhor formação do mundo é desperdiçada em quem não quer aprender, e a maior vontade de aprender fica limitada sem quem ofereça o contexto para crescer. O resultado só aparece quando as duas partes cumprem, cada uma, o seu compromisso.

Fica, no fim, uma convicção que deixo sobretudo aos mais novos, e a quem quer construir uma carreira sólida num mundo em permanente mudança. Não esperem que a atualização vos seja servida. Um profissional verdadeiramente valioso não é o que foi mais formado pela empresa, é o que nunca deixou de se formar a si próprio. Porque, num tempo em que a tecnologia muda tudo a cada ano que passa, deixar de aprender é começar, silenciosamente, a ficar para trás. E manter-se atualizado deixou de ser uma vantagem, para passar a ser a mais elementar condição de quem quer continuar a ser escolhido.

O peso de uma má contratação, sobre o custo real de escolher a pessoa errada.

Categoria: Opinião - Liderança
Autor: António Martins            
07 de Agosto de 2026

Poucas decisões têm um impacto tão profundo e tão duradouro na vida de uma empresa como a de contratar uma pessoa. E, no entanto, poucas são tomadas com tanta ligeireza. Contrata-se muitas vezes à pressa, para "tapar um buraco", com base numa boa impressão de uma hora de conversa, e só muito depois se descobre o verdadeiro preço dessa escolha. Um preço que raramente aparece nas contas, mas que a empresa paga durante meses, por vezes anos.

Convém dizê-lo com clareza. Uma má contratação não é apenas um pequeno contratempo que se resolve com uma substituição. É um dos erros de gestão mais caros que existem, e o seu custo é quase sempre muito superior àquilo que se imagina.

Um custo que vai muito além do salário

A tentação é medir o custo de uma má contratação pelo salário que se pagou a quem não servia. Seria, porém, uma leitura ingénua. O salário é apenas a ponta visível de um custo muito maior.

A gestão de recursos humanos há muito que estuda esta questão, e os números que apresenta são impressionantes. Estima-se que o custo total de uma contratação falhada possa ascender a várias vezes a remuneração anual dessa pessoa, quando se somam todas as parcelas envolvidas. E são muitas.

Há o custo direto do processo, ou seja, o tempo e o dinheiro gastos a recrutar, a selecionar e a integrar alguém que acabou por não resultar. Há o custo da formação investida numa pessoa que partiu ou que teve de sair. Há o custo de repetir todo o processo de novo, para encontrar o substituto. E há, sobretudo, o custo do tempo perdido, esses meses em que a função foi mal desempenhada, em que os erros se acumularam e em que os resultados ficaram aquém do que deviam ter sido.

A estes junta-se ainda um custo que ninguém fatura, mas que todos sentem. O custo de oportunidade. Enquanto a empresa esteve ocupada a gerir o problema de uma má contratação, deixou de fazer outras coisas. A energia da liderança, que é o recurso mais escasso de todos, desviou-se do que importava para apagar um incêndio que nunca deveria ter começado.

O dano invisível sobre a equipa

Se o custo financeiro já é elevado, o dano sobre a equipa é ainda mais insidioso, precisamente porque não se vê nas contas.

Uma pessoa mal escolhida não afeta apenas a sua própria função. Contamina o ambiente à sua volta. Quando alguém não cumpre, não entrega ou não se integra, são os colegas que absorvem a diferença. São eles que corrigem os erros, que compensam a falta de ritmo, que carregam um peso que não era o seu. A teoria organizacional é clara neste ponto, o desempenho de uma equipa não é a soma dos desempenhos individuais, é um sistema onde cada elemento influencia todos os outros.

Com o tempo, os melhores começam a desmotivar-se. Sentem que se esforçam para compensar quem não se esforça, e que a liderança tarda em resolver o que é evidente para toda a gente. E aqui reside o risco maior. Uma má contratação mantida por tempo demais não afasta apenas quem foi mal contratado. Afasta também os bons, que perdem a paciência e procuram outro lugar onde o mérito seja levado a sério. A empresa arrisca-se, assim, a perder duas vezes.

Porque erramos tanto a contratar

Se o custo é tão elevado, porque continuam as empresas a errar com tanta frequência? As razões são conhecidas e vale a pena enunciá-las, porque conhecê-las é o primeiro passo para as evitar.

A primeira é a pressa. Contrata-se sob pressão, para preencher de imediato uma vaga urgente, e a urgência é péssima conselheira. Uma cadeira vazia assusta menos uma empresa do que a cadeira ocupada pela pessoa errada, mas na hora raramente se pensa assim.

A segunda é a sedução pela experiência em detrimento da atitude. Deslumbramo-nos com um currículo extenso e com anos de casa noutras empresas, e esquecemos de avaliar aquilo que verdadeiramente determina o sucesso de alguém, que é o carácter, a atitude, a ambição sã e o alinhamento com os valores da organização. Competências técnicas ensinam-se. Carácter, não.

A terceira é a ausência de método. Muitas contratações fazem-se com base na intuição de uma única conversa, sem um processo estruturado, sem critérios definidos, sem verificar referências, sem confrontar o candidato com situações reais. Confia-se numa impressão, e a impressão engana.

Contratar devagar, decidir com método

A conclusão que se retira de tudo isto não é a de ter medo de contratar. É a de contratar com a seriedade que uma decisão desta importância exige.

Há uma máxima na gestão de pessoas que resume bem o essencial. Deve contratar-se devagar e, quando necessário, separar-se depressa. Contratar devagar significa dedicar tempo ao processo, definir com rigor o que se procura, avaliar a atitude tanto quanto a competência, e resistir à tentação de decidir apenas para resolver uma urgência. Cada hora investida a escolher bem poupa meses a remediar uma má escolha.

E quando, apesar de todo o cuidado, o erro acontece, porque acontece sempre a quem contrata, a atitude responsável é reconhecê-lo cedo e agir com verdade e com respeito. Prolongar uma má contratação por receio da conversa difícil não protege ninguém. Prejudica a empresa, prejudica a equipa e prejudica a própria pessoa, que perde tempo de vida num lugar onde nunca poderia vingar.

No fim, contratar bem é, provavelmente, a competência que mais distingue uma empresa que cresce de forma saudável de uma que vive em sobressalto permanente. Porque uma organização é, antes de tudo o resto, as pessoas que a compõem. E cada uma dessas pessoas foi, um dia, uma decisão. A qualidade dessas decisões é a qualidade do futuro que se constrói.

A gestão de pessoas como pilar das PME

Categoria: Opinião -  Gestão e recursos humanos
Autor: António Martins            
31 de julho de 2026

Uma reflexão sobre o que distingue as empresas que prosperam.

Há um consenso crescente em torno de uma ideia simples. Numa pequena e média empresa, a qualidade da gestão de pessoas é, provavelmente, o factor que mais determina o seu futuro. Não a dimensão, não o capital disponível, não sequer o produto. As pessoas, e a forma como são lideradas, são aquilo que separa as empresas que apenas sobrevivem das empresas que prosperam de forma duradoura.
Vale a pena reflectir sobre o porquê desta convicção, e sobre o que ela exige de quem tem a responsabilidade de dirigir.

Pessoas não são um custo, são o motor.

Numa grande organização, cada função tende a ter redundância. Se alguém sai, há estrutura suficiente para absorver a ausência. Numa PME a realidade é diferente. Cada colaborador concentra em si conhecimento, relação com o cliente e uma parte da cultura da casa. Por isso, a boa gestão de pessoas numa empresa de dimensão humana não é uma tarefa secundária. É o próprio centro da atividade de quem dirige.

Esta é, no fundo, a grande vantagem competitiva de uma empresa mais pequena. A proximidade. A capacidade de conhecer cada pessoa, de perceber o seu potencial e de a fazer crescer. Uma vantagem que se perde quando a gestão trata as pessoas como números numa folha e não como o activo mais valioso de que dispõe.

Atitude acima de currículo.

Muito se discute hoje a escassez de talento qualificado. É um facto que o mercado se tornou mais exigente e que os melhores perfis são disputados. Mas convém distinguir duas coisas. Uma é encontrar talento já formado. Outra, bem diferente, é cultivar talento a partir de quem tem a atitude certa.

Hoje defendo que uma boa política de recrutamento valoriza a atitude, a honestidade e a ambição acima da experiência prévia no sector. A técnica ensina-se com método e paciência. O carácter, esse, nunca se muda. Uma empresa que aprende a formar, constrói uma vantagem que o dinheiro sozinho não compra, porque desenvolve lealdade e competência ao mesmo tempo.

A liderança é uma competência, não uma recompensa.

Existe um erro clássico na gestão que merece ser nomeado. Confundir o reconhecimento pelo desempenho com a atribuição de responsabilidades de liderança. O melhor vendedor não é, por definição, o melhor chefe de vendas. São competências distintas, ambas valiosas, mas que raramente coincidem na mesma proporção.

Tratar a liderança como um prémio pela produção passada é arriscar perder um bom profissional e ganhar um mau líder. Vê-la, ao contrário, como um activo estratégico que se identifica cedo e se forma de maneira estruturada, é uma das decisões mais inteligentes que uma empresa pode tomar. Promover com critério é investir no futuro da organização.

Objetivos que motivam, não que esgotam.

A meritocracia e os sistemas que premeiam o desempenho são, na minha opinião, os alicerces de uma cultura saudável. Mas há uma condição que não pode ser ignorada. Os objetivos têm de ser exigentes e, ao mesmo tempo, credíveis.

Uma meta demasiado fácil não estimula ninguém. Uma meta impossível desmotiva e afasta os melhores, que procuram noutro lado o reconhecimento do seu esforço. O bom desenho de incentivos vive precisamente neste equilíbrio. Alinha o interesse individual com o interesse colectivo e transforma a ambição de cada um em resultado de todos. Quando o mérito é visível e justamente recompensado, a organização inteira ganha outro patamar de exigência.

A tecnologia ao serviço da relação.

A digitalização deixou de ser opcional. Ferramentas de gestão, indicadores e automação libertam as empresas de tarefas repetitivas e devolvem tempo para aquilo que verdadeiramente importa. Ainda assim, convém não confundir o meio com o fim.

A melhor tecnologia é a que aproxima quem dirige das suas equipas, e não a que o afasta atrás de um ecrã. Os sistemas de informação, os indicadores e as métricas são instrumentos ao serviço do julgamento humano. Uma empresa que se digitaliza bem não se torna mais fria. Torna-se, isso sim, mais eficiente e com mais tempo disponível para o que só as pessoas sabem fazer.

Construir para além de quem dirige.

Talvez a marca de uma gestão verdadeiramente madura seja esta. A capacidade de construir uma organização que funcione com excelência independentemente de qualquer figura individual. Uma empresa que dependa em absoluto do seu fundador é frágil. Uma empresa que profissionaliza a sua gestão de pessoas, que promove de dentro, que define regras claras e responsabilidades bem atribuídas, essa está a preparar-se para durar.

Importa, ainda assim, uma ressalva honesta. Promover de dentro é um princípio saudável, mas nem sempre exequível. Depende de existir, na própria equipa, quem reúna o perfil, a maturidade e, sobretudo, a disponibilidade para assumir novas responsabilidades. Quando esse talento existe e é acompanhado a tempo, a promoção interna é sempre a melhor via, porque preserva a cultura e recompensa a lealdade. Quando não existe, a solução passa por procurar fora, sem receios. O que importa é nunca promover apenas por antiguidade ou por falta de alternativa, mas sim por mérito e por adequação real à função.

No fim, é disto que se trata. De transformar um conjunto de pessoas talentosas numa organização sólida, humana e sustentável. Um legado que permanece muito depois de quem o começou.


Ninguém Constrói Nada Sozinho, Mas a Decisão é Sempre Solitária

Categoria: Opinião -  Desenvolvimento Pessoal
Autor: António Martins            
27 de julho de 2026

Aprendi cedo que nenhuma obra se levanta com um par de mãos apenas. Ao longo do meu percurso tive equipas, sócios, família e amigos que me deram tempo, ideias e coragem quando a minha começava a faltar. Sem eles, tudo teria sido bem mais difícil. E, no entanto, sempre que chegou a hora de decidir aquilo que verdadeiramente importava, dei por mim só. É esse paradoxo que quero explorar hoje.

Que ninguém se faz sozinho é uma das verdades mais antigas que conheço. Já os pensadores clássicos a tinham compreendido quando definiram o ser humano como um animal social, alguém que só se realiza plenamente na relação com os outros. Nascemos dependentes, crescemos rodeados, aprendemos por imitação e por diálogo. Tudo aquilo que somos traz a marca de quem passou por nós. Quem pensa que se fez a si próprio esquece apenas os ombros sobre os quais se apoiou para ver mais longe.

Reconhecer isto não é um sinal de fraqueza, é um exercício de honestidade. Devo muito a muita gente. Devo à confiança de quem apostou em mim antes de haver provas, devo à lealdade de quem ficou nos momentos difíceis, devo à crítica de quem teve a frontalidade de me dizer aquilo que eu não queria ouvir. A construção é sempre coletiva, feita de mãos que se juntam e de vozes que se cruzam. Aí reside grande parte da beleza de empreender e de liderar.

Sucede que há um ponto do processo onde essa companhia se dissolve. É o instante da decisão. Podemos ouvir todos os pareceres, reunir todos os dados, ponderar todos os cenários. Mas quando é preciso escolher um caminho e assumir as suas consequências, ninguém pode ocupar o nosso lugar. A responsabilidade não se reparte na exata medida em que se reparte o trabalho. Ela concentra-se, inteira, em quem decide.

Essa solidão da decisão tem uma explicação simples. Os outros aconselham a partir daquilo que sabem, mas nenhum deles carrega o peso total do que está em jogo. Só quem decide conhece a soma completa das variáveis, os receios que não confessa, a história que o trouxe até ali e o futuro que imagina. Por mais generoso que seja o conselho, ele é sempre parcial. A decisão, essa, é integral. E aquilo que é integral não se delega.

Durante algum tempo vivi este facto com alguma amargura, como se fosse um fardo injusto. Com os anos percebi que era antes uma consequência natural da liberdade. Quem decide é quem responde. Não há autoridade verdadeira sem esta contrapartida. Quem quer o direito de escolher tem de aceitar o dever de responder pela escolha. A solidão da decisão não é um castigo, é o preço da autonomia, e não conheço preço mais justo.

Compreender isto mudou a forma como me relaciono com quem me rodeia. Deixei de esperar que os outros decidissem por mim, e passei a valorizá-los por aquilo que realmente me dão, que é perspetiva e não certeza. Um bom conselheiro não existe para me tirar o peso da decisão, existe para que eu decida melhor. A diferença é subtil mas transforma tudo. Deixei de procurar quem me livrasse da solidão e passei a procurar quem a tornasse mais lúcida.

Há ainda uma dimensão mais serena nesta ideia. Se a decisão é minha e só minha, então também o é o mérito de a ter tomado bem, e a possibilidade de aprender quando a tomo mal. Essa solidão devolve-me algo precioso, que é a autoria da minha própria vida. Nada do que decidi me foi imposto por outro. Errei sozinho muitas vezes, e é por isso que os acertos também me pertencem por inteiro.

Fico assim com uma conclusão que me acompanha há muito. Devo muito aos outros e não devo a decisão a ninguém. As duas coisas convivem sem contradição. A gratidão pela companhia e a coragem da solidão são as duas faces de quem constrói. Uma dá-nos os materiais, a outra levanta a obra. E talvez seja essa, no fundo, a marca de uma vida assumida, saber agradecer a todos aquilo que recebemos, sem nunca pedir a ninguém que decida em nosso lugar.


O sucesso de ontem é o maior inimigo do amanhã

Categoria: Opinião - Desenvolvimento Pessoal
Autor: António Martins            
20 de julho de 2026

Há um paradoxo que fui aprendendo a reconhecer ao longo dos anos, e que se aplica tanto a empresas como a pessoas. Muitas vezes, o maior obstáculo ao sucesso futuro não é o fracasso passado. É o sucesso passado.

O fracasso, por mais doloroso que seja, mantém-nos alerta. Obriga a pensar, a corrigir, a procurar caminhos novos. O sucesso faz o contrário. Adormece. Convence-nos de que encontrámos a fórmula certa, de que já não é preciso questionar, de que basta repetir o que funcionou. E é precisamente aí, no conforto do que já correu bem, que começa, silenciosamente, o declínio.

A armadilha do conforto

O sucesso traz consigo uma tentação perigosa, a de parar de nos esforçarmos com a mesma intensidade que nos trouxe até ali.

Quando conquistamos alguma coisa, seja uma posição, um resultado, um reconhecimento, instala-se uma sensação de chegada. Sentimos que podemos abrandar, que já provámos o que tínhamos a provar. É uma reação humana e compreensível. Mas é também o primeiro passo para a estagnação. Porque enquanto nós abrandamos, satisfeitos com o que alcançámos, o mundo à nossa volta continua a andar. Os concorrentes evoluem, os clientes mudam, o mercado transforma-se, e as competências que ontem eram diferenciadoras tornam-se, com o tempo, apenas comuns.

O conforto é agradável, mas é traiçoeiro. Dá a ilusão de que estamos seguros no exato momento em que nos começamos a atrasar.

Aquilo que nos trouxe aqui pode não nos levar mais longe

Uma das lições mais importantes que a experiência me ensinou é que as competências e as estratégias que nos conduziram a um determinado ponto não são necessariamente as que nos vão levar ao ponto seguinte.

O que funcionou numa fase pode tornar-se insuficiente na fase seguinte. Aquilo que fez de alguém um excelente técnico não é o mesmo que fará dele um bom líder. O que tornou uma empresa bem sucedida num mercado pode não servir quando esse mercado muda. Agarrarmo-nos ao que funcionou no passado, só porque funcionou, é uma das formas mais comuns de ficar para trás.

Isto exige uma humildade difícil. A de reconhecer que o sucesso de hoje não é uma garantia, é apenas um ponto de partida para o desafio seguinte. E que continuar a crescer implica, muitas vezes, ter a coragem de abandonar aquilo que nos deu resultado, para aprender algo novo.

A acomodação disfarça-se de merecimento

Há um aspeto subtil neste processo que merece atenção. A acomodação raramente se apresenta como preguiça. Apresenta-se como merecimento.

Depois de muito esforço e de resultados conquistados, é natural sentir que se ganhou o direito de descansar, de colher o que se semeou. E há, de facto, momentos para isso. O problema é quando esse descanso deixa de ser uma pausa e se torna uma atitude permanente. Quando o merecimento legítimo se transforma em desculpa para parar de evoluir.

Os profissionais e as empresas que se mantêm relevantes ao longo do tempo têm uma característica em comum. Nunca sentem que chegaram. Celebram as conquistas, sim, mas encaram cada uma delas como um degrau, não como um destino. Mantêm viva a mesma fome que tinham no início, mesmo depois de já terem muito mais a perder.

Continuar a aprender é continuar a existir

Contra a acomodação, conheço apenas um antídoto verdadeiramente eficaz, que é a aprendizagem contínua.

Quem nunca para de aprender nunca se acomoda, porque a aprendizagem mantém a mente inquieta, curiosa, atenta ao que muda. É a aprendizagem que nos lembra, de forma permanente, que há sempre mais para saber, que ninguém domina tudo, que o mundo é maior do que aquilo que já conquistámos. E essa consciência é a melhor proteção contra a soberba que o sucesso tende a instalar.

Aprender não é apenas frequentar formações ou ler livros, embora também o seja. É manter uma atitude, a de quem observa, questiona e se deixa surpreender. A de quem ouve mais do que fala, mesmo quando já tem muito para ensinar. A de quem procura, em cada situação, algo que ainda não sabia. Enquanto essa atitude se mantiver, a acomodação não tem por onde entrar.

Uma última reflexão

O sucesso é bom, e vale a pena procurá-lo e celebrá-lo. Mas é preciso saber vivê-lo sem lhe cair na armadilha. Sem deixar que aquilo que conquistámos ontem nos convença de que já não é preciso lutar amanhã.

Ao fim de muitos anos, acredito que a diferença entre quem cresce durante toda a vida e quem estagna a meio do caminho não está no talento nem na sorte. Está na relação que cada um tem com o seu próprio sucesso. Uns deixam-se adormecer por ele. Outros usam-no como base para ir mais longe.

Porque o sucesso de ontem só se torna o inimigo do de amanhã quando lhe permitimos que o seja. E a decisão de não o permitir é, todos os dias, inteiramente nossa.


Gerir pessoas é um exercício de humanidade exigente

Categoria: Opinião - Liderança
Autor: António Martins            
19 de julho de 2026

Ao longo de mais de trinta anos de vida empresarial, e nas muitas conversas que fui tendo com outros gestores, formei uma convicção que hoje defendo sem hesitação. A qualidade da relação entre uma empresa e quem nela trabalha não se decide em regras nem em procedimentos. Decide-se na cultura de gestão de cada empresa e na atitude de cada uma das partes.

Falo com o conhecimento de quem viveu estas situações por dentro. Eu próprio, e muitos gestores com quem me cruzei ao longo dos anos, embora nem todos, colocámos sempre a humanização da gestão das pessoas em primeiro lugar. Isto significa que, perante situações difíceis, o primeiro instinto nunca foi partir para o confronto ou para a solução mais expedita. Foi abrir a porta do gabinete para uma conversa franca.

As situações que qualquer gestor reconhece

Refiro-me a situações que qualquer gestor experiente conhece bem. Colaboradores que entram num processo de desmotivação ou de negação, muitas vezes com origem em problemas pessoais, sejam eles dependências ou circunstâncias familiares dolorosas, e que transportam essas dificuldades para o dia a dia da empresa. Os prejuízos são reais, materiais, produtivos e por vezes reputacionais.

Perante estes casos, existe sempre o caminho mais rápido, o de afastar a pessoa e resolver o problema pela via mais direta. É um caminho legítimo, e há circunstâncias em que se torna inevitável. Mas muitos de nós escolhemos, deliberadamente, o caminho mais difícil. O do diálogo, da flexibilidade na relação, das segundas oportunidades. Escolhemos tratar o ser humano antes de tratar o problema.

O objetivo foi sempre o mesmo. Recuperar a normalidade da relação, trazer aquela pessoa de volta ao seu melhor, preservar simultaneamente o trabalhador e o seu lugar na empresa.

Nem sempre corre bem

Devo dizer, com total honestidade, que nem sempre corre bem. Há casos em que o colaborador responde à mão estendida com a degradação continuada da relação, acumulando custos que a paciência do gestor vai absorvendo até ao limite do razoável.

Os mais racionais criticam-nos por isso, e reconheço que por vezes têm razão. A generosidade sem limite não é gestão, é ingenuidade, e há momentos em que insistir é apenas adiar o inevitável e agravar o prejuízo.

Mas por vezes somos nós que temos razão. Quando a pessoa se reergue, recupera a sua dignidade profissional e se transforma num dos elementos mais leais e dedicados da organização. Quem já viveu um destes desfechos sabe que nenhuma folha de cálculo captura o seu valor. Uma lealdade conquistada num momento de fragilidade é das mais sólidas que existem.

A cultura e a atitude dos dois lados

É esta experiência que me leva à convicção central deste texto. As ferramentas para gerir estas situações existem, e qualquer gestor sabe usá-las quando é necessário. O que verdadeiramente sustenta uma boa relação laboral está noutro plano. Está na cultura e na atitude, e essa constrói-se dos dois lados.

Do lado da empresa, a maioria dos bons gestores valoriza profundamente o trabalhador produtivo, aquele que entrega mais do que seria expectável pela retribuição que recebe ao fim do mês. Aquele que defende a empresa e o seu posto de trabalho como se fossem seus, que se dedica com uma entrega que ultrapassa o mero cumprimento do dever. Um colaborador assim é um ativo raro e precioso, e os gestores que o sabem reconhecer tratam-no como aquilo que verdadeiramente é, um dos maiores patrimónios da organização.

Do lado do trabalhador, é justo esperar a mesma valorização em sentido inverso. Que reconheça a empresa que o acolhe e a decisão generosa de um gestor que preferiu restabelecer a normalidade da relação quando poderia simplesmente tê-la terminado. Uma empresa responsável não prescinde de forma leviana de um trabalhador importante. Mas é igualmente justo esperar que o trabalhador não prescinda, de forma leviana, da empresa que o respeita.

É neste reconhecimento recíproco, e não em qualquer regra, que assenta uma relação laboral verdadeiramente sólida.

Um compromisso que se renova todos os dias

A relação entre uma empresa e quem nela trabalha é, no fundo, um compromisso entre duas partes que se escolhem todos os dias. Não é um contrato assinado uma vez e esquecido. É uma escolha diária, feita de parte a parte, de continuar a merecer e a retribuir a confiança do outro.

Há um piso mínimo, feito de regras e de obrigações, e ainda bem que existe. Mas o que verdadeiramente importa constrói-se acima desse piso, e não se decreta nem se impõe. O respeito, a confiança e a lealdade recíproca constroem-se com carácter, com diálogo e com a convicção de que gerir pessoas é, antes de tudo, um exercício de humanidade exigente.

Digo exigente porque não se trata de ser complacente nem de confundir humanidade com fraqueza. Trata-se de algo mais difícil. De ter a firmeza de exigir e a sensibilidade de compreender, de saber quando insistir e quando aceitar que o caminho chegou ao fim, de tratar cada pessoa como um ser humano sem nunca esquecer as responsabilidades para com a empresa e para com todos os que dela dependem.

Uma última reflexão

Ao fim de tantos anos, é esta a lição que mais valorizo. Uma empresa não é feita apenas de números, de produtos e de processos. É feita de pessoas, com as suas forças e as suas fragilidades, os seus bons e maus momentos.

O gestor que compreende isto não gere apenas recursos. Gere relações. E as relações, quando cuidadas com humanidade e com exigência, tornam-se o alicerce mais sólido de qualquer organização, porque assentam naquilo que verdadeiramente une as pessoas, o respeito mútuo e a confiança construída ao longo do tempo.

No fim, gerir pessoas bem não é uma técnica. É uma forma de estar. Exigente com os resultados, generosa com as pessoas, e lúcida o suficiente para saber que uma coisa não vive sem a outra.


Delegar não é largar

Categoria: Opinião — Liderança PME
Autor: António Martins            
09 de julho de 2026

Poucas competências separam tanto um bom gestor de um gestor sobrecarregado como a capacidade de delegar. E, no entanto, poucas são tão mal compreendidas. Ao longo do meu percurso, observei que a maioria dos empresários falha na delegação por uma de duas razões opostas. Uns não delegam nada, e afogam-se. Outros delegam tudo, e perdem o controlo. A verdadeira arte está precisamente no ponto de equilíbrio entre estes dois erros.

Delegar não é largar. Esta distinção, aparentemente óbvia, é a que mais custa a interiorizar, e a que mais consequências tem na saúde de uma empresa.

Os dois erros opostos

O primeiro erro é o do empresário que não consegue delegar. Acredita que ninguém faz tão bem como ele, que se quer bem feito tem de ser ele a fazer, que entregar uma tarefa é perder qualidade. Vive assoberbado, é o primeiro a chegar e o último a sair, e não percebe que se tornou o principal obstáculo ao crescimento do próprio negócio. A empresa não cresce para além daquilo que ele consegue abraçar, porque tudo depende dele.

O segundo erro é o oposto e igualmente perigoso. É o do empresário que delega para se libertar, mas que confunde delegar com desaparecer. Entrega a tarefa, vira costas e deixa de acompanhar. Quando os problemas surgem, e surgem sempre, já é tarde para os corrigir. Este empresário abdicou não apenas da tarefa, mas da responsabilidade que continua, no fundo, a ser sua.

Entre estes dois extremos vive a delegação verdadeira, que não é nem o controlo sufocante nem o abandono, mas a confiança acompanhada.

O que é delegar de verdade

Delegar não é entregar um problema e esquecê-lo. É confiar uma responsabilidade a alguém, dando-lhe a autonomia para a cumprir, mas mantendo o acompanhamento necessário para garantir que caminha bem.

Aprendi, com a experiência, que delegar bem assenta em quatro condições. A primeira é escolher a pessoa certa, porque delegar em quem não tem competência nem maturidade não é delegar, é atirar o problema para longe. A segunda é ser claro no que se espera, definindo com precisão o resultado pretendido, os limites da autonomia e os prazos. A terceira é dar autonomia real, porque delegar e depois interferir a cada passo é a pior das combinações, gera confusão e desresponsabiliza. E a quarta é acompanhar e avaliar, criando pontos de controlo que permitem verificar o progresso sem sufocar quem executa.

É esta a diferença essencial. Quem larga entrega e desaparece. Quem delega entrega, confia, mas mantém-se presente na medida certa.

A confiança que se concede em graus

Uma das lições que mais me marcou é que a delegação não é um interruptor que se liga ou desliga. É um processo gradual, que se constrói por etapas.

Não se entrega tudo de uma vez a quem ainda não provou. Começa-se por delegar tarefas mais simples, avalia-se como a pessoa responde, e à medida que ela demonstra competência e responsabilidade, alarga-se progressivamente o âmbito da sua autonomia. A confiança concede-se em graus, e cada grau é merecido com resultados.

Este processo tem uma vantagem dupla. Protege a empresa, porque nunca se entrega mais do que a pessoa está preparada para assumir. E desenvolve as pessoas, porque cada nova responsabilidade é um degrau de crescimento que as prepara para a seguinte. Delegar bem é, por isso, também uma forma de formar.

A responsabilidade que não se delega

Há aqui um princípio que considero fundamental e que muitos gestores esquecem. Pode delegar-se a tarefa, mas nunca se delega inteiramente a responsabilidade última.

Quando entrego uma função a alguém, essa pessoa passa a ser responsável pela sua execução. Mas eu continuo responsável pela empresa, e portanto por ter escolhido bem, por ter acompanhado, por ter criado as condições para que corresse bem. Se algo falha, não posso lavar as mãos e culpar quem executou. A escolha de delegar foi minha, e a responsabilidade de garantir que a delegação funciona permanece comigo.

É precisamente por isso que largar é tão perigoso. Quem larga imagina que se libertou da responsabilidade, quando na verdade apenas deixou de a exercer. E uma responsabilidade que existe mas não é exercida é uma porta aberta para os problemas.

Delegar como sinal de força

Existe a ideia equivocada de que delegar é sinal de fraqueza, de que um líder que entrega tarefas está a demitir-se do seu papel. A experiência ensina exatamente o contrário.

Delegar bem é uma das maiores demonstrações de maturidade de um gestor. Exige a humildade de reconhecer que não se pode fazer tudo, a inteligência de escolher as pessoas certas, a generosidade de confiar e a disciplina de acompanhar sem sufocar. O empresário que domina esta arte multiplica-se, porque o seu tempo e a sua energia deixam de ser o teto do negócio.

Uma empresa em que tudo depende do dono é uma empresa limitada e frágil. Uma empresa que funciona porque as responsabilidades estão bem delegadas e bem acompanhadas é uma empresa sólida, que cresce e que resiste, mesmo quando o dono não está presente. E construir uma empresa assim é, no fundo, o objetivo de qualquer empresário que pense a longo prazo.

Uma última reflexão

Delegar não é abdicar nem é controlar tudo. É confiar com método, entregar com clareza e acompanhar com equilíbrio. É a arte de estar presente na medida certa, nem a mais, que sufoca, nem a menos, que abandona.

O empresário que aprende a delegar assim liberta-se para fazer aquilo que só ele pode fazer, que é pensar, decidir e conduzir o rumo da empresa. E dá às suas pessoas o espaço para crescerem, o que é, afinal, a forma mais duradoura de fazer crescer o próprio negócio.

Delegar bem não é largar. É confiar sabendo, sabendo o que se entrega, a quem se entrega e como se acompanha aquilo que se entregou.




 Autor: António Martins
26 de junho de 2026

Existe um hábito profundamente enraizado nos processos de seleção da maioria das organizações. Olha-se primeiro para o currículo, para os anos de experiência, para as empresas onde o candidato passou e para os resultados que apresenta. Durante muito tempo, este foi também o meu critério dominante, na convicção de que representava rigor. Com o tempo, percebi que representava sobretudo convenção.
A experiência informa-nos sobre aquilo que uma pessoa fez. Não nos diz quem essa pessoa é. E é a segunda dimensão, não a primeira, que determina o desempenho futuro dentro de uma organização.

Os limites do currículo


Um percurso impecável pode ocultar uma acomodação instalada, uma resistência à aprendizagem ou um conjunto de hábitos difíceis de corrigir. Inversamente, um currículo modesto pode esconder uma genuína vontade de crescer, que vale mais do que qualquer credencial formal.
A observação repetida ao longo dos anos confirma este princípio. Percursos brilhantes revelam-se, com frequência, decepcionantes, não por insuficiência técnica, mas por ausência de atitude, de humildade para aprender ou de compromisso com o coletivo. Em sentido contrário, pessoas sem qualquer experiência prévia no setor tornam-se, com formação e acompanhamento, elementos de elevado valor, precisamente porque trazem consigo aquilo que mais importa, a vontade de aprender, a honestidade e a ambição de fazer melhor.

Uma distinção fundamental

Há uma distinção que considero estruturante em matéria de gestão de pessoas. A competência ensina-se. O carácter não.
É possível ensinar alguém a dominar um produto, a operar um sistema ou a executar um procedimento. Trata-se de uma questão de treino, de tempo e de método, ao alcance de qualquer pessoa dotada de inteligência média e de disposição para aprender. O que nenhuma formação consegue transmitir é a integridade que não existe, a ambição que não foi cultivada ou o sentido de responsabilidade que nunca chegou a desenvolver-se.
Esta constatação conduz a uma inversão de prioridades no processo de seleção. A avaliação da pessoa, da sua forma de se relacionar com o trabalho, da maneira como reage a questões exigentes, da capacidade de assumir responsabilidades em vez de as transferir para terceiros, deve preceder a análise das competências técnicas. Estas últimas são importantes, mas vêm em segundo lugar.

Os critérios que importam

Quatro dimensões merecem atenção particular num processo de contratação.
A primeira é a vontade de crescer, a predisposição para ver no trabalho mais do que uma contrapartida salarial e para se incomodar quando algo corre mal, independentemente da atribuição de culpas.
A segunda é a honestidade, fundamento de toda a relação de confiança. Sem confiança não há delegação possível, e uma pessoa tecnicamente competente mas desprovida de integridade representa um risco superior ao de uma pessoa íntegra ainda inexperiente.
A terceira é a ambição equilibrada, aquela que impele alguém a superar-se sem prejudicar os outros, e que tende a elevar o conjunto da equipa.
A quarta é o alinhamento com a cultura da organização. Uma pessoa de elevado mérito individual que não respeita as regras nem partilha os valores da empresa gera mais ruído do que resultado.

O retorno de um investimento exigente

Contratar com base na atitude implica um esforço acrescido na fase inicial. Exige disponibilidade para formar, acompanhar e aguardar o tempo necessário ao desenvolvimento da pessoa. Não constitui o caminho mais rápido, mas é, com larga vantagem, o mais rentável a longo prazo.
Um colaborador com a atitude adequada, devidamente formado e integrado, tende a tornar-se leal, fiável e progressivamente mais valioso. Cresce com a organização, compreende-a em profundidade e alcança, não raras vezes, posições de responsabilidade que o seu ponto de partida não permitia antecipar.

Uma convicção consolidada

A experiência acumulada permitiu-me consolidar um conjunto de princípios em matéria de pessoas. A promoção interna deve ser privilegiada sempre que as circunstâncias o permitam, porque assenta no reconhecimento do potencial e porque quem cresce dentro da organização a conhece melhor do que qualquer recrutamento externo. A atitude deve preceder a competência na ordem de prioridades, porque a segunda se constrói e a primeira não. E o carácter constitui um requisito inegociável, justamente por ser a única dimensão que a organização não consegue desenvolver no lugar da pessoa.
Contratar é, em última análise, uma decisão sobre o futuro. E o futuro constrói-se melhor com quem aspira a chegar longe do que com quem se limita a invocar onde já esteve.

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